1968: A realidade bate em sua porta

Grão lançado ao ar por All3X às 22:42 de domingo, 7 de dezembro de 2008

Eram os Anos de Chumbo, e o Brasil vivia em intenso sistema de repressão às manifestações sociais. Ainda assim o movimento estudantil conseguiu levar às ruas cem mil pessoas para protestar diante o caos imposto pelo regime. O descontentamento era flagrante, e a população se insurgia desejando mudanças na estrutura com o trato social.

Num momento anterior, me perguntava se depois do ocorrido em 1968 no Brasil, ainda teríamos a mesma consciência daquele instante... Se naquele ano o Brasil possuía 300 mil alunos no ensino superior e conseguia fazer manifestações do porte da passeata dos cem mil, em 2008 temos quase 5 milhões de universitários, mas se esvaeceu os protestos. Contudo a realidade opressora não se alterou.

O movimento estudantil de lá para cá em muito se politizou, busca a plenitude das liberdades democráticas que se almeja para toda a sociedade. Mas em sentido oposto caminham os demais estudantes, que se fecharam em grupo na busca da realização de interesses do seu segmento apenas. Desvinculados do restante dos indivíduos sociais, os universitários visam à sua satisfação profissional num mercado cada vez mais competitivo e excludente.

Mas não foi apenas o movimento estudantil que se diluiu, é a própria sociedade que hoje se cala perante os choques sociais. Assistimos aos imensos desequilíbrios desencadeados pelo modelo que adotamos, mas nada fazemos. Vultosas quantias são desviadas dos cofres públicos, multidões morrem vítimas de desequilíbrios ambientais não previamente solucionados, outros tantos de violência urbana não contida, como tantos outros conflitos que muitos sabem. E o que nos sobra é o silêncio, ou o murmúrio não ouvido.

Se durante o século 20 conhecemos várias formas de opressão pelo poder, como foi o caso brasileiro da ditadura militar implantada na década de 60, ao iniciar do século 21 temos novas formas de opressão, mas desta vez apenas dissimulada. E o que vemos é m distanciamento da população frente a essas questões. Enquanto se agravam mais os conflitos, e maior a inaptidão em solucioná-los, mais os indivíduos se resignam em não se interessar por alterar tal quadro.

A massa dos estudantes do ensino superior não possui nenhum vínculo político atualmente, e não me refiro aqui à filiação partidária, mas à defesa de ideais políticos que estruturam o Estado. E mais tarde serão estes os estudantes que formarão a elite econômica do país, o que se explica a perpetuação do modelo social vigente. A conduta tomada agora repercute pelos anos restantes, pois aquele que não se sensibiliza com a realidade, pouco se importa em defender uma postura de combate frente a esses valores. Passados os anos rebeldes, ninguém mais se rebelou.

Este texto faz parte do Projeto G8

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10 outro(s) grão(s) se juntaram a este.

  1. Postado em segunda-feira, dezembro 08, 2008 11:46:00 AM

    Oi, Alex! A Ditadura conseguiu uma mobilização boa na sociedade, tanto na área estudantil, quanto na cultural, sobre liberdade. Pena que hoje esse sentimento político de liberdade não esteja tão presente entre todos. Excelente texto!

    Abraço,

    =]

    -------------------
    http://cafecomnoticias.blogspot.com

     
  2. Postado em segunda-feira, dezembro 08, 2008 3:48:00 PM

    Amei a última frase!
    Alex, amigo querido, que discrepância, né? Em 68, 30% da classe estudantil se moveu em torno de uma passeata, hoje, com os 5 milhões, esse número não se alcança. Que lástima! Eu cheguei a participar de várias passeatas aqui por Sampa, em solidariedade aos professores e a questão salarial, em passeatas políticas, mas hoje em dia, a coisa parece esvaziada mesmo e quando acontece, explode de maneira equivocada, como os recentes episódios de invasão e depredação dos campi universitários pelo país.
    Desistir é o que não se pode e vc mandou bem, mais uma vez, em propagar a idéia. Ficou ótimo o artigo, muito costurado, muito embasado e isso já está ficando cansativo tb. Vou ter que começar a usar sinônimos. hehehe
    E quando é que eu vou pro ES? rs Tá certo que vc está em Minas tb, como o nosso amigo paulista Daniel, mas agora temos que arrumar esse encontro na terra de Roberto, com vc de host. Vamos organizar! rs Ou, se vcs preferirem antes, recebo todo mundo aqui primeiro, com muito gosto!
    Adorei teu comentário no Babel, viu? Me emocionou. : )
    Beijocas carinhosas e essa semana deve ter reunião, né? Então, nos encontramos!
    Beijos!

     
  3. Postado em terça-feira, dezembro 09, 2008 11:49:00 PM

    Simplesmente...fantástico....Cara, a partir de hoje, minhas horas na internet serão bem mais produtivas com certeza. Seu blog é ótimo e seu talento na escrita ainda realça mais o brilho desse cantinho aqui. Gostei mesmo, parabéns.

    Quando puder vai no meu, abraços...
    http://lopopinheiro.blogspot.com

     
  4. All3X disse:
    Postado em quarta-feira, dezembro 10, 2008 11:11:00 AM

    Valeu Wander, depois de tantas crises institucionais atualmente, nada é feito. E concordo Letícia, alguns valores se alteraram com o tempo.
    Abração meus caros, terei que a partir de agora também encontrar novos sinônimos para me referir a esses dois...super demais...
    E Flávio, valeu a visita, pode voltar sempre sim. Espero produzir material com um pouco de qualidade.
    All3X

     
  5. juji disse:
    Postado em quinta-feira, dezembro 11, 2008 11:04:00 AM

    Seu blog é muito bacana, adorei. Passei para saber se você gostaria de trocar links. Mas meu blog nada tem a ver com o seu, de qualquer forma, estendo o convite:
    http://suaverdade.blogspot.com
    Abraços...

     
  6. Postado em sábado, dezembro 13, 2008 12:47:00 PM

    Alex,

    É com grande prazer que retorno a comentar no Grãos de Areia pelo Infinito.

    Quarenta anos se passaram e perfil político-nacional assumiu uma nova roupagem no que se refere aos estudantes, principal força contestatória do país.

    Os anos de opressão se foram e as seqüelas adquiridas pela tortura e a dor gerada pelo regime, inibiram essa categoria que tornou-se passiva, ante um mundo que se consolidou por esferas de poder nítidas - ricos e pobres - decorrentes do encrudescimento do capitalismo financeiro, que trabalha o ser desde a base, mecanizando a educação, que deixa de ser formadora de opinião, para ser propagadora de opiniões pré-estabelecidas.

    Uma realidade triste, que não pode continuar. Por isso, cabe a nós estudantes, reverter este quadro ou lançam em meio a esse oásis, um gérmem de vida, de rebeldia, de contestação.

    Abraços.

     
  7. Marcelo disse:
    Postado em sábado, dezembro 13, 2008 2:36:00 PM

    Alex,

    Acho que a conjuntura que levou a manifestações em 68 se distanciam demais da conjuntura atual. Há opressão sim, mas com outro cara e, certamente, mais branda. A presença do estado armado era ostensiva naquele ano e isso era só a ponta do iceberg.
    Aqueles eram tempos de luta direta contra um inimigo comum, o poder opressivo do estado militar. Hoje, os mecanismos de opressão são mais complexos. O inimigo não tem cara e se escondem pela burocracia do governo.
    Quanto aos movimentos estudantis, quero acreditar que existem boas intenções por trás deles. O que vejo são pessoas que se envolvem com estes movimentos durante a faculdade por que nutrem uma certa resistência a esse negócio de estudar e, na primeira oportunidade, vêem a chance de se eleger vereador, deputado, prefeito.. enfim, qualquer coisa que lhe garanta sustento com o suor do rosto dos outros. Talvez, seja a realidade com que convivi e eu esteja sendo cruel. Talvez exista um lugar em que as pessoas envolvidas com esses movimentos tragam a pureza do sentimento pela coletividade em seus corações.
    A juventude da década de 60 trazia consigo a ingênua ilusão das flores vencendo fuzis... e quando não fosse possível, que os fuzis vencessem os fuzis...
    Mas, como John Lennon falou, e serve para quase tudo:

    O sonho acabou e a realidade idealista se curva para um monte de contas vencidas dispersas sobre a mesa e a uma geladeira vazia.

    Um grande abraço

    Marcelo

     
  8. All3X disse:
    Postado em domingo, dezembro 14, 2008 5:29:00 PM

    Lucas, cabe a nós, mais do que estudantes, mas como cidadãos, mudarmos a realidade de passividade para nos tornarmos sujeitos ativos transformadores da realidade.
    Agradeço a volta ao Grãos. E venha mais vezes sim nos abrilhantar com sua visita.
    Marcelo, o sonho não acabou. Enquanto houver alguém que está excluído da satisfação de seus interesses mais básicos, devemos buscar a sua inclusão. Mudam-se os carrascos, mas a opressão continua a mesma. A burocracia é mesmo um dos muitos males que mascaram a real conjuntura. Mas como diss, temos que fazer algo.
    Seus comentários são dignos de reflexão. E isso muito me orgulha.
    Abraços,
    All3X

     
  9. Postado em terça-feira, dezembro 23, 2008 2:22:00 PM

    Eu também comentei sobre isso em http://conscienciaacademica.blogspot.com/2008/12/edio-de-14-12-2008-ai-5.html .

    O movimento estudantil ainda é visto como caso de polícia, mas ele se dispersou não foi pelo medo. Foi mais uma dispersão cultural mesmo. Os estudantes pensam que está tudo bem, então relaxam, procuram se preocupar com outras coisas, como atualizar o álbum de fotos do Orkut, por exemplo, e não lutam mais por seus direitos, como outrora.

     
  10. All3X disse:
    Postado em terça-feira, fevereiro 10, 2009 11:28:00 AM

    Valeu Ynot, tem razão com o que diz. Os pensamentos atuais são outros.
    E deixa eu ir lá conferir seu blog...
    All3X

     

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