A Democracia bate em sua porta

Grão lançado ao ar por All3X às 22:11 de quinta-feira, 3 de julho de 2008

Após 1967, a ditadura militar brasileira estava aumentando a repressão contra os movimentos de protesto ao governo. E naquele período as manifestações estudantis eram os mais expressivos meios de denúncia e reação contra as arbitrariedades do governo. A cada ato de represália militar, as forças de oposição ganhavam mais apoio popular.
O movimento culminou na Passeata dos Cem Mil, em junho de 1968, que ocorreu no centro do Rio de Janeiro, na Cinelândia, sendo a maior e mais representativa manifestação de protesto ocorrida no país desde a instalação do regime militar.
Em março daquele mesmo ano, um estudante secundarista tinha sido baleado por um policial dentro de um restaurante universitário. O cortejo foi acompanhado por aproximadamente 50 mil pessoas, o que já mostrava a inclinação da população contrária aos atos de extrema violência praticada pelo regime. Em abril, outro evento marcante foi durante a missa da Candelária, no qual soldados a cavalo investiam contra todos os presentes no local.
As manifestações eram promovidas pelo movimento estudantil, mas contou também com a participação de profissionais liberais e religiosos, assim como de intelectuais, entre escritores, jornalistas, professores, cineastas, atores e músicos do país, que eram perseguidos pela censura.
Durante os confrontos com o governo, muitos jovens morriam, ou eram seqüestrados e torturados. O que atemorizava as mães era o fato constatado de que se hoje morreu um jovem, amanhã poderia ser um de seus filhos.
Esse foi um dos marcos do movimento, a grande mobilização da classe média, principalmente o público feminino. Geralmente esta é a ala mais moderada e apática perante movimentos sócio-políticos. Evento que se tornou comum nos movimentos contrários às ditaduras latino-americanas.
Com maciça adesão popular, refletindo o seu crescente descontentamento, o movimento reivindicava o fim da censura, o restabelecimento das liberdades democráticas, pondo fim à repressão e a redemocratização do país. Porém, em dezembro daquele ano, o governo endureceu o regime editando o Ato Instituição N.5. Os Anos de Chumbo, como assim foram chamados, representou o período em que a população viveu perante grande temor e subjugada à violência estatal.
No início do governo do até então Estado da Guanabara (entre 1965-1970), Francisco Negrão de Lima tinha como campanha a mensagem de que ao final de seu governo, quando alguém batesse em sua porta, você poderia ficar tranqüilo que não se trataria da polícia, e sim do leiteiro. No entanto, não foi o que houve.
Mas se momentaneamente nada mudou no panorama nacional, tendo inclusive aumentado a repressão, ainda assim o movimento não fracassou. A maior revolução obtida foi a mudança de mentalidade. A população passou desde então a ter maior consciência política, que levou sim, em certo prazo, na redemocratização do país. Só me falta saber se, depois do ocorrido, ainda temos a mesma consciência de antes...

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5 outro(s) grão(s) se juntaram a este.

  1. Postado em sexta-feira, julho 04, 2008 11:50:00 AM

    Alex,

    Gostaria de parabenizá-lo pelo post. Bem escrito e historicamente correto.

    Bem, os movimentos revolucionários de 1968 foram o embrião para as mudanças que vieram mais tarde: a democratização.

    Você definiu bem a classe média: da apatia à ação. Ela ficou consternada cm a morte do jovem Éder Luiz, acompanhada pelos 50 mil aqui ditos.

    Excelente post!
    ___________________________________
    http://semfronteirasnaweb.blogspot.com

     
  2. Postado em sexta-feira, julho 04, 2008 7:18:00 PM

    Além dos movimentos sociais, o estopim para a redemocratização foi justamente a criação do AI 5. O povo não pode jamais suportar que suas liberdades mais básicas sejam violadas.

    Mas eu me pergunto: se a economia continuasse a crescer 10, 12% ao ano, será que o Regime Militar teria fim? Vale a pena crescer à custa da perda de liberdade? E, ainda, sem desenvolvimento social?

    Até mais, Alex!

     
  3. All3X disse:
    Postado em terça-feira, julho 08, 2008 3:35:00 PM

    Agradeço Daniel e Lucas pela visita.
    E acrescento: Que crescimento econômico se sustenta em endividamento externo, um dos maiores de toda a história brasileira? Respondo: promovendo um período de concentração de renda que também foi igualmente histórico.
    Um grande motivo de descontentamento popular, a valorização de uma elite em detrimento da grande maioria da população.
    All3X

     
  4. tania disse:
    Postado em terça-feira, julho 08, 2008 7:11:00 PM

    Muito bom e bem-escrito o texto! Adorei, nessas horas dá vontade de ser de outros tempos, sabe?! Uma certa nostalgia daquilo que nem vivi, mas preferiria a ter q viver o q vejo hoje acontencendo e só me dá tristeza e decepção, uma atrás da outra, sem nenhum ponto positivo exceto o de que deve estar burilando o espirito de todo mundo,rs

    bjos

     
  5. All3X disse:
    Postado em sexta-feira, julho 18, 2008 4:33:00 PM

    Tânia, posso até compreender o que disse, mas lembre-se: o legado que nos foi deixado pelo passado nos dá força para irmos adiante e fazermos novas conquistas.
    Valeu,
    All3X

     

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