Um espirro no México

Grão lançado ao ar por All3X às 09:00 de domingo, 17 de maio de 2009

Muito se diz, mas pouco se acrescenta. A Gripe suína se alastrou, mas mais rápido do que ela foram os alardes em seu entorno. O que deveria ser pronunciado, no entanto, ficou olvidado.

No interior do México, um pequeno produtor rural de uma cidadezinha qualquer assiste ao televisor o presidente Felipe Calderón pedir para que todos permaneçam em suas residências para se evitar o alastramento do vírus H1N1 (causador da chamada ‘gripe suína’). Em seu momento de temor, cogita o interiorano ter ele próprio colaborado para o agravamento do surto da doença com a sua criação de porcos nos fundos da casa. O que esse senhor não sabe é que perto dali uma fazenda de criação intensiva de suínos trabalha exaustivamente.

Gigantescas fazendas industriais mantidas por corporações multinacionais operam atualmente no interior do México, e suas condições sanitárias não são as mais rigorosas. Perigosamente, um número excessivo de porcos é alojado dentro de galpões com uma precária limpeza, recebendo coquetéis de drogas e outras substâncias para alimentação indiscriminadamente.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização para a Agricultura e Alimentação (FAO) alertam para a grande probabilidade de serem essas companhias que contribuíram para a formação de uma espécie viral mais forte e resistente que se espalhou globalmente. O risco sanitário de geração e transmissão de epidemias e doenças em tais indústrias aumenta na medida em que as condições em que ali são criados os animais não são fiscalizadas e reguladas.

Na ótica do mercado, a produção concentrada e de grande escala é tida como essência motora do crescimento econômico. Contudo, não se observa um mínimo, em muitas das vezes, do que seria esperado para a sustentabilidade do negócio. Para se otimizar os lucros, os gastos e investimentos, seja em condições ambientais ou segurança sanitária e outros, são reduzidos às expensas das condições de vida da população, que sofre as consequências.

Enquanto isso, as farmácias daquela mesma cidadezinha no México (como em muitas outras seguidas pelo mundo afora) esvaziam os estoques de máscaras respiratórias. Nas ruas se lançou a repentina moda dos respiradouros em vários formatos e modelos. Basta um espirro da mídia para que todos se sintam resfriados. O que mostra também o fomento dos veículos de comunicação por uma polêmica (que se cria ou se amplia) capaz de vender uma boa notícia. O mercado sobrevive graças às agitações que ele mesmo causa.

Mas não será agora que a espécie humana passará por uma grande hecatombe. Sobrevivemos tantas outras, não será neste momento que cairemos. A dengue nossa de todos os verões está aí para comprovar, ceifando tantas outras vidas – a diferença é que agora os atingidos são também os países mais desenvolvidos. Mas a ameaça para a saúde humana é real, e necessita de cuidados imediatos para a sua preservação.

Deve ocorrer é uma verdadeira mudança do padrão de produção de alimentos atualmente adotado, de modo a criar mecanismos de controle criteriosos e enfáticos das empresas de agronegócio. Só assim nos protegeremos do risco de alastramento de uma nova doença e de sua conversão em verdadeira pandemia mundial. Além, é claro, do fato de que aquele produtor rural anteriormente citado poder dormir mais tranquilo e no dia seguinte almoçar servido de carne suína sem qualquer remorso ou preocupação.


Imagens: topo - Abduzeedo; interior - Reuters

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5 outro(s) grão(s) se juntaram a este.

  1. Postado em domingo, maio 17, 2009 10:21:00 AM

    Fome, capital, comemos e devastamos tudo, a carne, o virus - aos poucos somos eles - a gripe que contamina e mata = somos homens...
    Abraços
    Everaldo Ygor

     
  2. All3X disse:
    Postado em domingo, maio 17, 2009 11:06:00 AM

    Valeu Everaldo, queria faser uma analogia com o vírus como você mencionou, mas ficaria o texto maior e com outro foco. Agradeço por ter comentado então o que disse.
    All3X

     
  3. Postado em domingo, maio 17, 2009 11:35:00 AM

    Oi, Allex! Parabéns pelo texto e por trazer informações novas sobre a gripe suína. Apesar da OMS ser cautelosa na distribuição de comunicados o fato é que vivemos uma pandemia da Gripe Influenza A: não é alarde, mas sim precaução. O governo mexicano foi omisso em não alertar o mundo assim que os primeiros casos foram dignosticados, pois a contaminação se deu, muitas vezes, no trânsito de pessoas de um lugar para o outro.


    Abraço

     
  4. All3X disse:
    Postado em domingo, maio 17, 2009 3:00:00 PM

    Sim, Wander, devemos estar atentos para não se alastrar ainda mais a contaminação. Mas temos que focar que para não sermos mais vítimas de doença como essas devemos investir em fiscalização sanitária e melhorar a qualidade da produção, que não pode ser livre em seu agir.
    Valeu pelo comentário.
    All3X

     
  5. Postado em sexta-feira, maio 22, 2009 3:11:00 PM

    E muito bom o seu texto !

     

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