Antes de o Sol se pôr

Grão lançado ao ar por All3X às 19:43 de domingo, 22 de junho de 2008

Após vários anos de agitação política, o último xogum renuncia e em 1868 assume o poder o Imperador Meiji, que não só aboliu o sistema de xogunato no Japão, como encerrou a era feudal. O arquipélago passa então a voltar seus olhos para o ocidente.
Até o momento, o país vivia em um regime de isolamento das outras nações e possuía uma economia atrasada, sendo controlado política e economicamente pelos xoguns. Contudo, o novo império, conhecido como ‘Regime Iluminado’, preparou o terreno para a modernização do país.
O Japão da época possuía enormes entraves para seu desenvolvimento, como pouca disponibilidade de recursos naturais e fontes de energia, território pequeno que não é suficiente para grande cultivo de plantações, além de ser grandemente recortado, formado por aproximadamente 3.000 ilhas. No entanto, soube promover as reformas necessárias e gerenciar os investimentos para fortalecer o crescimento econômico.
Uma das principais reformas promovidas foi a agrária, em 1886, que dava aos camponeses o direito de adquirir propriedades rurais. Contudo, como havia poucas terras cultiváveis no país e a população crescia rapidamente, o governo viu-se no meio de uma crise. A solução veio logo: incentivar a população a emigrar para nações amigas.
A economia brasileira da época era movimentada pelo café, sendo o país responsável por produzir 4/5 do consumo mundial do grão, e havia a preocupação iminente de perda da mão-de-obra agrícola. Desde 1830 o tráfico negreiro estava proibido, o que pressionou o governo a substituir escravos por trabalhadores imigrantes. Foi então que o Brasil publica, em 1907, a Lei de Imigração e Colonização, que permite a migração entre Brasil e Japão.
Os primeiros raios de Sol surgiam no horizonte iluminando a Serra do Mar, que mais parecia, naquele instante, apenas pequenos pontos verdes além do imenso azul do Atlântico. Depois de duas paradas, uma em Cingapura e outra na Cidade do Cabo, o navio Kasato Maru, que partiu do Porto de Kobe, atraca no Porto de Santos, em uma manhã de junho de 1908, após 52 dias de viagem. Trazia 781 passageiros, oriundos principalmente da cidade de Osaka.
Segundo O Correio Paulistano do dia 26 de junho de 1908, assim dizia o artigo, de autoria do então inspetor da Secretaria de Agricultura - órgão responsável pela política migratória do governo do Estado de São Paulo - J. Amâncio Sobral:
“(…) Esta primeira leva de imigrantes japoneses entrou em nossa terra com bandeiras brasileiras de seda, feitas no Japão, e trazidas de propósito para nos serem amáveis. Delicadeza fina, reveladora de uma educação apreciável”.
Neste ano de 2008 comemoramos o centenário da imigração japonesa ao Brasil, relembrando o encontro cultural entre os dois povos. Mas o que devemos ponderar neste evento é o que nós aprendemos com o exemplo japonês de disciplina.
Nestes 140 anos que o Japão saiu do período feudal, ele deixou de ser uma nação economicamente atrasada e se tornou a segunda economia mundial, tudo isso ainda sofrendo enormes baixas nas duas grandes guerras mundiais. Enquanto que nós continuamos no mesmo modelo agroexportador que incentivou a vinda deles ao nosso país.
O que faz jus ao termo ‘Terra do Sol Nascente’, pois sua cultura é capaz de se valer das oportunidades oferecidas pela natureza para promover o desenvolvimento. Não especificamente a natureza física, mas a humana. Foram capazes de fazer de forma planejada e organizada uma gestão eficiente que tinha tal finalidade. Saber gerir os recursos financeiros e bem aplicá-los em setores estratégicos podem ser apontados como a receita do sucesso japonês de prosperidade.
Tudo isso porque tiveram a aptidão de considerar que prosperidade de verdade se faz com desenvolvimento humano. Investindo, entre outros, em setores como saúde, educação e qualificação pessoal e profissional, integrando o crescimento econômico com o bem estar social.
Atualmente, enquanto os japoneses lucram com comércio de bens de alta tecnologia, nós vivemos da exportação de commodities, que possuem pouco valor agregado. Além do fato que sua sociedade colhe os frutos de um desenvolvimento igualitário para todos os setores sociais, promovendo o incremento da qualidade de vida de quase toda a população. E nós amarguramos os prejuízos trazidos pela enorme desigualdade social.
O tempo avança e perdemos a cada dia que passa a oportunidade de superar tais entraves. Devemos então seguir o exemplo japonês e fazermos semelhante. Para não mais remediarmos no futuro, devemos agir com celeridade, antes que acabe o tempo que ainda nos sobra para tomarmos alguma medida necessária. Antes que o Sol se oculte atrás da linha do horizonte e não possamos fazer mais nada.

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13 outro(s) grão(s) se juntaram a este.

  1. Postado em quarta-feira, junho 25, 2008 10:06:00 AM

    Alex, o Japão é um grande exemplo de que o desenvolvimento sempre é possível. Como bem observou, o país enfrentava escassez de recursos naturais, além de grandes problemas posteriores, após a derrota na II Grande Guerra. Lá, a incessante gana pelo trabalho construiu o progresso. Aqui, os imigrantes ajudaram a formar muitas das coisas boas que fez o Brasil nos últimos cem anos.

    Até mais!

     
  2. Postado em quinta-feira, junho 26, 2008 1:23:00 PM

    Texto um pouco extenso, mas muito bom. Tinha coisas ali que eu não sabia. ;D

    Cara, aceito parceria sim..
    add meu link aí e depois me avisa que eu faço o memso
    ;D

    Sobre o jumper.. nossa, nada mais que um passatempo mesmo. Bem descartável o filme.

    Não deixe de visitar:
    And I Said Goddamn!

     
  3. Postado em sexta-feira, junho 27, 2008 12:31:00 PM

    Lá fora o vento sopra
    O Sol brilha forte
    Rindo do meu desespero

    http://prixhoje.blogspot.com/

     
  4. danisiinha disse:
    Postado em sexta-feira, junho 27, 2008 12:57:00 PM

    puxa que texto interessante !!
    é devemos pensar e agir rapido né?

     
  5. Postado em sexta-feira, junho 27, 2008 1:08:00 PM

    muitooo legaaal!
    Eu sempre tive um facínio pela história do Japão, e adoro ler sobre histórias do antigo Japão.
    Muito legal o seu blog!!:P

     
  6. caio arroyo disse:
    Postado em sexta-feira, junho 27, 2008 1:28:00 PM

    Com certeza o melhor exemplo de uma país que evoluiu mesmo com problemas e principalmente aprendeu com os erros, coisa que as vezes o brasileiro nao faz

     
  7. Postado em sexta-feira, junho 27, 2008 1:31:00 PM

    concordo com os comentários acima. o japão é o maior e o melhor exemplo de superação. infelizmente só coneguimos importar seus produtos e não seus valores.

     
  8. Postado em sexta-feira, junho 27, 2008 1:34:00 PM

    Texto grande,mas muito interessante,varias coisas que eu nao sabia.

     
  9. Postado em sexta-feira, junho 27, 2008 3:33:00 PM

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    Gostei do POST hein!!!

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  10. All3X disse:
    Postado em sexta-feira, junho 27, 2008 6:20:00 PM

    Agradeço a visita de Daniel, Fernando, Priscilla, Dani, Bertonie, Caio e Dário.
    O Japão deve sim ser exemplo de como devemos guiar nossos projetos de gestão, por isso fica a homenagem quanto ao dia do início da imigração japonesa ao Brasil.
    Só espero que surta efeito o contato entre essas duas culturas...
    Valeu a todos,

     
  11. Lya Lopes disse:
    Postado em sábado, junho 28, 2008 12:06:00 AM

    Nossa, peguei as coisas voando agora. Acabo de sair de um blog de piada, pra me deparar com história. Mas internet é isso mesmo.


    O japão é do tipo de país curioso, mas que detestaria viver.




    Retribuindo visita

     
  12. All3X disse:
    Postado em sábado, junho 28, 2008 3:18:00 PM

    Valeu Lya, é sempre bom dar um tom de inovação e diversidade na internet.
    E não se importe, também não gostaria de viver no Japão, adoro minha terra, creio apenas que seja preciso observar os acertos dos outros para incrementarmos o nosso modo de viver.
    All3X

     
  13. All3X disse:
    Postado em sábado, junho 28, 2008 3:58:00 PM

    Um fato interessante é que, logo ao desceram do Kasato Maru, os imigrantes ouviram fogos e sinais de uma calorosa festividade. Imaginavam que o que se passava se tratava de sua recepção, mas, na realidade, não passava de uma das tradicionais festas juninas brasileiras. Creio que não demos o devido valor...

     

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